quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sujos e mal lavados

Diante das surpreendentes delações e conversas gravadas entre os sujos e os mal lavados, cada depoimento e "vazamento" desnuda a podridão dos bastidores da nossa política e impõe medo aos citados.
Entre uma delação aqui e outra acolá, um áudio vazado numa certa manhã, outro noutra, fomos bombardeados de falcatruas: da tentativa de Dilma em dar foro privilegiado ao Lula até o “esquema do Aécio [Neves]”. Do ex-ministro da Educação, Aluísio Mercadante, tentando comprar o silêncio do delator e ex-senador Delcídio do Amaral às campanhas financiadas pelo Petrolão. Parece que esse mar de lama não vai se acalmar tão logo. Não sem antes mais alguns se sujarem ou se afogarem.
Desde que os áudios passaram a ser divulgados, descobrimos que existe uma República em Curitiba a qual Lula teme e uma Suprema Corte acovardada querendo pegar todos os políticos. Acompanhamos a "imprensa golpista" noticiando a conversa em que Romero Jucá planejava melar a Lava Jato e Sérgio Machado sugerindo "proteger Lula, proteger todo mundo". Assuntos mais reveladores, vindos diretamente dos esgotos fétidos da política, resultam da conversa de Renan Calheiros (o imundo) também com Sérgio Machado. "Renan defende, por exemplo, uma mudança na lei de delação premiada com o objetivo de impedir que um investigado pela Operação Lava Jato se torne delator. Sugere, entre outras coisas, que o semi-parlamentarismo poderia ser uma saída para a crise que se instala com o avanço das investigações, um sistema que daria mais poder de decisão ao Congresso" (ElPaís).
As confissões telefônicas de Calheiros alegam que Dilma chegou a insistir em pedidos a João Roberto Marinho, dono da Rede Globo, para que as organizações Globo a ajudassem a se recuperar e evitar o impeachment. O empresário teria respondido, porém, que não tinha condições de ajudá-la por haver um “efeito manada” contra o seu governo. Renan afirma ainda que ela [Dilma] é corrupta e que "a Odebrecht vai tacar tiro no peito dela". Pra piorar, José Sarney teria afirmado: "A Odebrecht [...] vão abrir, vão contar tudo. Vão livrar a cara do Lula. E vão pegar a Dilma. Porque quem tratou diretamente sobre o pagamento do João Santana foi ela".
Bem verdade é que a Lava Jato não tem como alvo apenas o PT, o PP, o PMDB ou o PSDB. Como disse Machado, "não escapa ninguém de nenhum partido". Por isso a tese do golpe perde total efeito, ainda mais quando se percebe que as maracutaias pretendiam proteger até petistas. Fica evidenciado que se a Operação parasse por aí, não haveria mais condenados de sigla alguma. Por isso as artimanhas de todos são para "estancar a sangria" provocada pelas delações. O intuito soberano dos políticos flagrados é barrar a Lava Jato e proteger a si mesmos, seus partidos e mandatos.
É nessa onda do salve-se quem puder que a política tem seguido seus dias turbulentos e vem arrebentando nas costas do povo. Mais delações, traições e revelações deverão emergir do lamaçal, mas para todos os sujos e os mal lavados a solução é um lava a jato e, assim, o Brasil vai ficando, talvez, um pouco mais limpo.
(Autor da charge desconhecido)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Divulgação: Globo Repórter apresentará o Vale Europeu

O caminho dos anjos, conhecido como "el piccol paradis" (o pequeno paraíso),
situa-se no bairro Ipiranga, em Rodeio/SC, e integra o Circuito de Cicloturismo do Vale Europeu
(Foto de Maurício Borges extraída do blog borgesm)

É com grande expectativa que os moradores do chamado "Vale Europeu", em Santa Catarina, aguardam a abertura da temporada 2016 do jornalístico "Globo Repórter", da TV Globo. Isso porque o programa irá mostrar ao Brasil e ao mundo os encantos desse cantinho brasileiro localizado no Estado catarinense: cultura e belezas construídas pelo homem e pela natureza darão uma noção de como é viver aqui.

Vale salientar, porém, que a denominação de "Vale Europeu" tem a ver com a colonização resultante de um processo histórico envolvendo imigrantes oriundos de países como Alemanha, Itália e Polônia a partir de meados do século XIX. Vale Europeu, portanto, é uma regionalização turística atribuída a este espaço geográfico.  

Destaca-se ainda que, apesar de essa parte do Vale do Rio Itajaí apresentar condições de vida que se sobressaem em relação a outras partes do país, aqui também enfrentam-se vários problemas. As grandes enchentes noticiadas pela mídia nos últimos anos não podem ser esquecidas. Além do mais, a desigualdade e a pobreza estão presentes em nossas cidades, embora que de maneira não tão enfática. A insegurança associada à criminalidade tem aumentado devido a falta de policiamento. E o tratamento do governo estadual para com a Educação? Um descaso maquiado. Falta de saneamento, as más condições das rodovias? Não, isso não vai aparecer no programa. Mas tudo bem, não é este o foco...

Embora exista, sim, uma série de problemas (afinal, aqui é Brasil), não há como negar que em inúmeros aspectos, sejam culturais, tradicionais, naturais e econômicos, o Vale Europeu se destaca por ser um pedacinho diferente desse imenso e variado país. Para quem não conhece, vai ser bom assistir! Para quem já esteve no Vale, vai matar a saudade. E para quem é daqui, vai ser divertido e honroso "se ver"! 

O programa irá ao ar no dia 19, sexta-feira. 


Saiba mais:

Que Brasil é este?
Estradas cobertas de verde, paisagens deslumbrantes e construções que parecem ter vindo de outros países.
O Globo Repórter desta sexta (19) revela onde ficam as cidades campeãs em qualidade de vida. Onde os salários são melhores, e sobram empregos.
Muita comida natural. Hortas orgânicas onde os próprios moradores plantam e colhem a salada do almoço. 
Doces tradicionais - atraentes e muito saborosos. E quantas famílias eles sustentam.
Nas escolas públicas, crianças aprendem a ler e escrever em alemão e português.
Nossos repórteres atravessam o circuito mágico dos ciclistas. Pedalando por 350 quilômetros num cenário de tirar o fôlego.
Cachoeiras. Montanhas. E o surpreendente vale dos anjos. Obra de fé esculpida pelas mãos de um só homem.
Nas profundezas da Terra, o fascínio das cavernas formadas em milhões de anos. E um misterioso chão de estrelas.
O refúgio dos bugios. Um lugar onde animais perseguidos pelo homem finalmente encontram paz.
Tudo isso você vai conhecer no Vale Europeu. Sexta (19), no Globo Repórter.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Documentário "Nostra Terra Brasilis" narra a imigração italiana no Rio Grande do Sul

Eles vieram em busca da “cucagna” – fartura –, fugindo da fome e da falta de trabalho na Itália de 1875. Deixaram os vários “paesi”  – cidades italianas – para enfrentar a dureza da vida no campo no Sul do Brasil, onde eram proibidos de falar o dialeto vêneto, a língua italiana do nordeste da Itália. 

"Nostra Terra Brasilis" é uma produção da TV Brasil que foi levada ao ar esta semana. Ela mostra um pouco da história da imigração no Rio Grande do Sul e a cultura que se formou em parte do Estado gaúcho a partir da vinda dos italianos vênetos. 



https://www.youtube.com/watch?v=GEHZphQNJ6Y  

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Origem e significado da Bandeira do Brasil

19 de novembro é o Dia da Bandeira, o principal símbolo da nossa Nação. Mas qual é a origem da nossa bandeira e o significado das suas cores e símbolos? 

Representação da Bandeira Nacional
Fonte: Guia Dicas


Como se sabe, a Proclamação da República ocorreu no dia 15 de novembro de 1889. Foi adotada, provisoriamente, uma bandeira muito semelhante a dos Estados Unidos da América com as suas conhecidas listras horizontais brancas e vermelhas e as estrelas brancas dentro de um quadrado azul representando os estados. Na versão abrasileirada, no entanto, as listras eram verdes e amarelas. Essa influência do país norte-americano em relação a bandeira não resistiu por mais de 4 dias, já o nome oficial da nova república da América, a República dos Estados Unidos do Brasil, durou um certo tempo e só foi alterado em 1969, em pleno Regime Militar, para República Federativa do Brasil. Nome oficial em vigor até os dias de hoje.

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Bandeira do Brasil Imperial
Fonte: Mundo Estranho

A nova bandeira republicana, adotada no dia 19 de novembro de 1889 (daí a origem do Dia da Bandeira), rejeitou a influência estadunidense e adotou os traços da Bandeira Imperial do Brasil, revelando ainda um certo apego ao antigo regime político e a continuidade de determinadas práticas. O verde e o amarelo persistiram predominando, o azul também se mantinha presente, mas agora dispostas numa nova configuração. Mas afinal, por que a insistência com estas cores? 

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Bandeira provisória da República dos Estados Unidos do Brasil
Fonte: Mundo Estranho

Desde criancinhas somos ensinados que o verde da bandeira representa as belas matas do Brasil, que o amarelo simboliza o ouro e as riquezas e o azul o maravilhoso céu que nos cobre. Pois então, essa história é um pouquinho diferente... Essa maneira de assim interpretar as cores da Bandeira Nacional foi uma adaptação republicana. Mas, em resumo, o amarelo representava, na realidade, a Casa de Habsburgo (Dona Leopoldina) e o verde representava a Casa de Bragança (Dom Pedro I). As estrelas representavam as províncias. 

Além das cores presentes na Bandeira do Brasil, existem também outros símbolos com seus respectivos significados. A inscrição “Ordem e Progresso” é escrita sempre em verde, e é uma abreviação de um lema positivista, do autor francês Auguste Comte. A inscrição completa seria: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim.” As 27 estrelas da Bandeira representam cada Estado federativo do Brasil, e o Distrito Federal. Elas foram distribuídas na Bandeira de acordo com o posicionamento em que elas estavam na noite de 15 de novembro de 1889. (O significado das cores da Bandeira do Brasil, 2015). 

No vídeo abaixo, o consultor legislativo Joanisval Gonçalves fala da origem e do significado de cada detalhe da Bandeira do Brasil. A reportagem é de Ricardo Westin para o Senado Federal. 

             Bandeira do Brasil é tema do “Arquivo S” do Jornal do Senado



Fontes:

O significado das cores da Bandeira do Brasil. Disponível em http://situado.net/o-significado-das-cores-da-bandeira-do-brasil/. Acessado em 19 nov. 2015. 

Saiba mais 
Bandeiras históricas do Brasil (do período colonial ao fim do Império) http://www.monarquia.org.br/-/obrasilimperial/Bandeirashistoricas.html


Significado das estrelas da bandeira (localize o seu Estado) http://www.brasilescola.com/brasil/significado-das-estrelas.htm 

Significado das cores da Bandeira do Brasil: http://guiadicas.net/significado-das-cores-da-bandeira-do-brasil/ 

sábado, 14 de novembro de 2015

O Terror da sexta-feira 13 em Paris

Uma noite de terror assombrou a sexta-feira, 13 de novembro. Mais uma vez, neste ano de 2015, Paris foi alvo de ataques terroristas. Nesta ocasião, colocando à prova as medidas de segurança do país após o massacre na sede do jornal Charlie Hebdo ocorrido em janeiro. 

Na Guerra contra o Terror, iniciada logo em seguida ao 11 de setembro de 2001, os inimigos fazem mais vítimas e ferem os valores essenciais da humanidade. E justo onde os valores da civilização moderna nasceram e deram forma ao tripé da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. 

O radicalismo do Estado Islâmico, infelizmente, banha de sangue espaços de cultura e lazer da capital francesa, bastante frequentados por jovens e turistas. 129 pessoas foram mortas e mais de 300 ficaram feridas. 

Dentre os alvos dos terroristas, destacam-se uma casa de shows (Bataclan), onde houve incisivos tiroteios e ataques suicidas que causaram a maior chacina. Só neste local mais de 70 foram mortos. Outro ponto atacado foi o estádio de futebol no qual acontecia a partida entre França X Alemanha. Segundo uma nota publicada pelo próprio Estado Islâmico:

Oito irmãos carregando coletes suicidas e armas automáticas alvejaram áreas no coração da capital francesa que foram especificadamente escolhidas antes: o Stade de France durante uma partida contra a Alemanha na qual o imbecil [sic] François Hollande estaria presente; o Bataclan, onde centenas de idólatras estariam juntos numa festa da perversidade; além de outros alvos no 10º,  no 11º e no 18º arrondissements (divisões administrativas da cidade). [...] A França e todos aqueles que seguem seu caminho devem saber que permanecem o principal alvo do Estado Islâmico.

O que também impressiona e entristece em meio a tudo isso é que, conforme declaração do presidente francês, François Hollande, este ato de guerra que foi preparado, organizado e planejado no exterior, contou com cumplicidade de dentro da França. Cabe enfatizar que muitos jovens franceses, persuadidos pela ideologia islâmica nos tempos recentes, acabam partindo para treinamentos in loco no Oriente Médio e depois retornam à sua pátria. Em vista disso, Hollande prometeu uma resposta "implacável" aos atos de terror e decretou três dias de luto nacional.

No comunicado emitido pelo Estado Islâmico, houve a confirmação de que a localização dos ataques foi cuidadosamente estudada e contou com "combatentes" vestindo coletes suicidas e levando armas automáticas.
A nota considerou Paris "a capital da abominação e da perversão" e alertou: "este não é nada mais do que o começo de uma tempestade e uma advertência para aqueles que queiram meditar e tirar suas conclusões".
Diante disso, o mundo ocidental democrático fica em alerta por ser o alvo favorito desse tipo de ataque, como se tem comprovado nos últimos anos. A Guerra ao Terror se torna ainda mais fugaz neste início do século XXI e parece que quanto mais se fala em tolerância, respeito às diferenças e às liberdades individuais, em direitos humanos e na paz mundial, mais distante isso fica da realidade global. 
Mas o combate ao extremismo e aos atos terroristas tem que ser contundente. O medo não deve impedir as forças que se movem em prol da humanidade e nem sufocar a esperança em um mundo melhor onde prevaleçam a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade e, assim, a tão desejada Paz. 
Sinalizando luto, luzes da Torre Eiffel são apagadas
Fonte: Jornal El Nacional 


Referências
http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2015/11/14/hollande-culpa-estado-islamico-por-atentados-e-promete-resposta-implacavel.htm 
http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2015/11/14/estado-islamico-assume-autoria-de-atentados-na-franca.htm
Saiba mais:
Terror e covardia em Paris - http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/11/terror-e-covardia-em-paris.html 
"Foi um banho de sangue", relata sobrevivente do Bataclan - http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2015/11/13/foi-um-banho-de-sangue-relata-sobrevivente-do-bataclan.htm 
Entenda o que aconteceu no ataque ao jornal Charlie Hebdo - http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/01/1576091-entenda-o-que-aconteceu-no-ataque-ao-jornal-charlie-hebdo-em-paris.shtml
Linha do tempo da Guerra ao Terror - http://noticias.uol.com.br/album/110906_linhadotempo_album.htm 
Esvaziada, Paris está e choque e sob marcas de bala - http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706473-esvaziada-paris-esta-em-choque-e-sob-marcas-de-bala.shtml


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A Base Nacional Comum e o currículo de História

BNCC
Fonte: página do MEC 
Em busca de se alcançar um currículo comum a todas as regiões e escolas do Brasil, desde a creche ao ensino médio, seja no âmbito público ou privado, o Governo Federal, através do Ministério da Educação, lançou o documento preliminar da Base Nacional Comum. Para este fim, está-se promovendo a participação de toda a sociedade brasileira.  

A Base deverá ser composta por temas e elementos principais a serem ensinados e discutidos na Educação Básica dentro das áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas de maneira homogênea em todo o país. 

No que tange à História, algumas críticas surgiram como reação à eliminação ou desprezo de temas importantes da trajetória Ocidental que deu forma à sociedade atual. No documento apresentado até o momento, há um excesso de culturalismo e uma escassez de criticidade historiográfica, como se poderá notar no artigo abaixo:

Proposta do MEC para ensino de história mata a temporalidade
DEMÉTRIO MAGNOLI
ELAINE SENISE BARBOSA 

08/11/2015

RESUMO Este texto critica a visão de história da Base Nacional Comum Curricular proposta pelo Ministério da Educação. Ao abandonar a temporalidade em prol de certa noção de cultura, a BNC bane a ideia de história em construção e apaga dos livros didáticos as páginas consagradas à formação das modernas sociedades ocidentais.
*
O ensino de história deve se basear "em ensinamento crítico, mas sem descambar para ideologia". A recomendação apareceu no Facebook do já então ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, como uma crítica explícita à Base Nacional Comum Curricular (BNC) de história, divulgada quando ele ainda chefiava a pasta.
Por uma dessas extraordinárias coincidências, Janine pronunciou-se horas depois da publicação de artigo de nossa autoria sobre o mesmo assunto ("História sem tempo", "O Globo", 8/10). E, casualmente, ele repetiu um argumento nuclear daquele artigo. "Não havia, na proposta, uma história do mundo", escreveu, cutucando a ferida de um programa que ignorava "quase por completo o que não fosse Brasil e África".
Janine tem razão quando enquadra o debate na moldura dos direitos dos estudantes e enfatiza o tema, tão esquecido, da pluralidade. "É direito de todo jovem saber o trajeto histórico do mundo. Precisa saber sobre a Renascença, as revoluções, muita coisa. Mas não há uma interpretação única de nenhum desses fenômenos. E é esta diversidade que a educação democrática e de qualidade deve garantir." Aloizio Mercadante, novo titular do ministério, parece igualmente convencido de que há algo de fundamentalmente errado num documento com "muita África e história indígena e pouca história ocidental".
As críticas de Janine e Mercadante têm peso político suficiente para provocar algum tipo de reforma na BNC, mas apenas roçam a superfície do problema: atrás da abolição da "história ocidental" encontra-se a supressão do próprio sentido temporal que define a disciplina.
Marc Bloch disse que "a história é a ciência dos homens no tempo". Na direção oposta, os autores (anônimos e, assim, "especialistas") do documento do MEC investiram numa sociologia do multiculturalismo que esvazia a temporalidade e, com ela, a gramática da historiografia. De fato, se aplicada, a proposta oficial significará o cancelamento do ensino de história. A narrativa histórica canônica estrutura-se sobre um esquema temporal clássico: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea. De acordo com a BNC, alunos do 6º ano do ensino fundamental, com 11 ou 12 anos de idade, devem aprender a "problematizar" o "modelo quadripartite francês". Dali em diante, até o fim do ensino médio, o "modelo" nunca mais aparece.
Junto com ele, desintegra-se o ensino da Grécia clássica, do medievo das catedrais, do comércio e das cidades e, ainda, das rupturas filosóficas, culturais e religiosas que anunciaram a modernidade.
No lugar disso, segundo o documento do MEC, o ensino médio é chamado a se concentrar no estudo dos "mundos ameríndios, africanos e afro-brasileiros" (1º ano), dos "mundos americanos" (2º ano) e dos "mundos europeus e asiáticos" (3º ano). Assim, expulsa da escola, a temporalidade é substituída por supostos atores coletivos, construídos a partir de uma tosca noção de cultura.
TEMPORALIDADE
A história entrou na escola pelas mãos do Estado-Nação europeu, no século 19. Inexiste novidade na crítica ao paradigma temporal clássico, impregnado de positivismo, evolucionismo e eurocentrismo. Contudo superá-lo não implica suprimir a gramática da temporalidade.
O programa (mal) camuflado da BNC não é incorporar a África, a Ásia e a América pré-colombiana ao ensino de história, mas recortar dos livros didáticos as páginas consagradas à formação das modernas sociedades ocidentais, erguidas sobre o princípio da igualdade dos indivíduos perante a lei.
Numa primeira versão da proposta, informa Janine, os autores orientavam o estudo de revoltas coloniais com a participação de escravos ou índios, mas "deixavam de lado a Inconfidência Mineira". Seria um equívoco concluir daí que a exclusão decorria, principalmente, da ausência de escravos ou índios no movimento dos inconfidentes. O alvo da censura situa-se mais abaixo: na presença das ideias iluministas que conectam Tiradentes às revoluções Americana e Francesa.
Há método no caos da BNC. Sem a ágora grega, praça de mercado e praça pública, os estudantes ignorarão as origens do individualismo e da democracia –e a relação que existe entre ambos. Sem a Idade Média europeia, jamais entenderão a importância das religiões monoteístas na formação de sociedades que, pela primeira vez, englobaram grupos geográfica e culturalmente diversos por meio de valores éticos universalistas. Sem o Antigo Regime, não serão apresentados à filosofia das Luzes, base do contrato político da cidadania e fonte da ideia de que as pessoas são donas de suas escolhas e seus destinos. Sem a contestação socialista ao liberalismo, que emergiu na Europa novecentista, não compreenderão a trajetória de afirmação dos direitos sociais e trabalhistas.
O vácuo dessas múltiplas ausências será preenchido pelo ensino de histórias paralelas de povos separados pela intransponível muralha da "cultura".
A "história ocidental" mencionada por Mercadante converteu-se, num certo ponto, em história universal, pois a expansão dos Estados europeus –um percurso balizado pelas navegações, pela Revolução Industrial e pelo imperialismo– entrelaçou o mundo inteiro. O paradigma temporal clássico refletia a idealização desse processo. Uma educação democrática tem o dever de narrá-lo na sua inteireza, evidenciando suas luzes e suas sombras.
A herança ocidental abrange tanto a liberdade quanto a opressão: o habeas corpus e o tráfico escravista, a soberania popular e a tirania, a independência nacional e o colonialismo, a igualdade política e o racismo, os direitos humanos e o totalitarismo, a vacinação e a morte radioativa. A educação escolar tem o desafio de investigar tais complexidades e contradições. Mas, à abordagem dos educadores, a BNC contrapõe o método típico dos doutrinadores, fornecendo uma narrativa sobre mocinhos e bandidos que infantiliza professores e estudantes.
Quando Bloch define a história pela dimensão temporal, ele quer enfatizar seu caráter cronológico: o sentido de "processo", isto é, as relações e interações que promovem constantes mutações sociais.
A "história em construção" é precisamente aquilo que os formuladores da BNC pretendem dissolver, de modo a fabricar sujeitos a-históricos: grupos étnicos ou raciais identificados por supostas essências culturais e, portanto, impermeáveis à mudança. Eles não querem, como alegam, conferir visibilidade à história da África, da Ásia ou da América pré-colombiana, mas fabricar a "história dos africanos", a "história dos ameríndios" e a "história dos asiáticos", numa cartolina que incluiria, ainda, a "história dos europeus".
FETICHIZAÇÃO
Seria um equívoco interpretar a BNC como uma revolta contra o "ocidentalismo". De fato, não há nada mais "ocidental" que a fetichização da cultura. O essencialismo cultural deita raízes na "ciência das raças", elaborada à sombra do imperialismo, que falava do "fardo do homem branco" e produzia quadros descritivos sobre os "negros" (africanos), os "amarelos" (asiáticos) e os "vermelhos" (ameríndios). Atualmente, sob o mesmo registro operativo, difunde-se a tese neoconservadora do "choque de civilizações". Os autores convocados pelo MEC usam a linguagem e os conceitos do "choque de civilizações", fabricando uma cópia invertida da célebre narrativa sobre a "missão civilizatória" dos europeus.
A escritura da história segue caminhos diversos. A historiografia liberal enfatiza a política e o indivíduo. Os historiadores marxistas colocam os holofotes sobre as classes sociais e a economia. Mais recentemente, a nova história alargou e fragmentou o campo de investigação, abordando as mentalidades, ou seja, as representações sociais. A BNC, contudo, rejeita em bloco todo esse variado repertório, pois recusa a temporalidade. Nesse passo, acende uma fogueira destinada a consumir as obras consagradas e a melhor produção historiográfica acadêmica.
Para que serve o ensino de história? Na sua origem, a história escolar servia para inscrever a pátria no mármore da eternidade. A antiga visão utilitária reaparece, sob roupagem atualizada, na BNC.
Reagindo à crítica tardia de Janine, a professora Márcia Elisa Ramos, da Universidade Estadual de Londrina, defendeu a proposta do MEC recorrendo a uma alegação orwelliana de aparência banal: "O ensino de história deve não apenas estudar as diferenças mas compreender para respeitar. O currículo apenas contempla os objetivos do ensino de história, que são respeito à diversidade, pluralidades étnico-raciais, religiosa, de gênero etc.".
Não se ensina biologia para que os jovens aprendam regras de saúde e higiene. Não se ensina química para evitar a ingestão de substâncias tóxicas pelos alunos. Não se ensina física para alertar sobre o perigo de saltar da janela do edifício. Não se ensina português para treinar a habilidade de redigir solicitações de emprego. Não se ensina matemática para calcular os rendimentos da poupança. Tudo isso, bem como a aversão a preconceitos étnicos, raciais, religiosos ou de gênero, são subprodutos úteis da educação escolar. Mas o conhecimento serve a si mesmo: é um passaporte que garante acesso ao diálogo do mundo.
Diferentes indivíduos leem o mundo de formas diversas. Escola não é igreja: não é lugar de pregação, de tutela ou de retificação de mentes "desviantes".
A história, como as outras disciplinas, serve para acender a chama da curiosidade intelectual, ensinar os fundamentos do pensamento científico, habilitar os jovens para investigar, interpretar e refletir. Nossos doutrinadores de plantão, sábios "especialistas" que não declinam seus nomes, jamais concordarão com isso.
DEMÉTRIO MAGNOLI, 57, sociólogo e doutor em geografia humana, é colunista da Folha.
ELAINE SENISE BARBOSA, 50, é professora de história, autora de "História das Guerras" (Contexto).
SAIBA MAIS acessando o site oficial da BNCC

terça-feira, 10 de novembro de 2015

10 de novembro de 1937 - O golpe do Estado Novo

Após o Governo Provisório que se instalou com a Revolução de 1930 e se estendeu até 1934, a Assembleia Constituinte elegeu (voto indireto) Vargas para um mandato de 4 anos. Este mandato, de acordo com a nova Constituição de 1934, chegaria ao fim em 1938. 

Em 37, a questão da sucessão presidencial e a escolha dos candidatos passou ao primeiro plano nas discussões políticas. Tudo transcorria com aparente normalidade, mas o próprio presidente preparava um golpe para impedir a sucessão e continuar no poder. Para isso, contava com o apoio do chefe do Estado-Maior do Exército (general Góis Monteiro) e também do Ministro da Guerra (Eurico Gaspar Dutra), além do chefe de Polícia do Distrito Federal (Filinto Muller). (COUTO; CARMO, 1994).

Vargas sabia que na maioria dos Estados os governadores e comandantes do Exército estariam dispostos a apoiá-lo. Mas seria preciso criar um clima propício, para justificar o golpe. Em 30 de setembro foi armado o pretexto. O historiador Mario Schmidt afirma que “os jornais anunciaram que o Estado-Maior das Forças Armadas descobrira um plano de insurreição comunista, de autoria de um certo Cohen (Plano Cohen)” (SCHMIDT, 2005, p. 146). Na verdade, tratava-se de uma farsa para conseguir o apoio de uma parte da população. Os discursos persuasivos e a utilização da mídia garantiriam a aceitação popular. Quanto à elite não haveria problemas, até porque os comunistas não eram bem quistos pelos industriais, fazendeiros, banqueiros, governantes e outros setores da elite capitalista que fundamentava seus objetivos na acumulação de bens e de lucros, ou seja, condições combatidas pelos comunistas.

Conforme Schmidt (2005, p. 146) no dia 10 de novembro de 1937, deputados e senadores que se dirigiam ao Congresso foram barrados pelos soldados. O Congresso fora fechado. À noite, em cadeia de rádio, o presidente dirigiu-se à nação, anunciando o início do Estado Novo e a vigência de uma nova Constituição. Iniciava-se, naquele instante, uma experiência de ditadura civil no Brasil. 

A Constituição de 1937 era influenciada pelo fascismo e dava poderes totais ao presidente. Ele podia fazer decretos, leis e nomear interventores para o governo dos Estados. Todos os partidos políticos foram extintos e os adversários do regime, principalmente os comunistas, sofreram violenta perseguição, prisão, tortura. “O golpe de 1937 acaba com os partidos políticos, mas abre a possibilidade para que estes se tornem associações de caráter cultural.” (COUTO; CARMO, 1994). 

A política de Vargas, como se pode notar, era a de não se apoiar em nenhum partido político, pois isso lhe permitia governar sem ter que assumir compromissos com nenhum setor da sociedade. Mas para ter um amplo apoio popular era necessário conquistar o povo, ou seria controlar o povo? 

Ao mesmo passo que concedia regalias aos trabalhadores desde a sua chegada ao poder visando, assim, a sua permanência, Vargas contentava a classe empresária. O sindicalismo corporativo e a criação de direitos trabalhistas são alguns dos exemplos da postura varguista diante destas classes. Porém, no Estado Novo a face autoritária do presidente se torna mais visível e, em 1939, determina a existência de um único sindicato por categoria profissional acompanhada da criação do imposto sindical, através do qual é descontado anualmente um dia de trabalho da folha de pagamento (DEL PRIORE e VENANCIO, 2013, p. 255-256). 

E a intervenção trabalhista não para por aí. Conforme Del Priore e Venancio, a Consolidação das Leis Trabalhistas, firmadas em 1943, determina que o trabalhador dispensado deveria ser indenizado, a mulher operária teria direito a serviços de amparo à maternidade, assim como se restringe a exploração do trabalho infantil, além da criação de uma justiça do trabalho, com o intuito de intermediar o conflito entre patrões e empregados (op. cit.). Com tudo isso, não haveria o porque de a massa trabalhadora não estar satisfeita com seu presidente, assim como para os capitalistas que viam seus negócios industriais serem incentivados pela intervenção estatal e tendo afastada a ameaça comunista.  

Manipulação em outros setores também foram contundentes. No caso da Educação, houve "a ampliação de vagas e a unificação dos conteúdos das disciplinas no ensino secundário e no universitário. Isso para não mencionar a criação do ensino profissional, consubstanciado em instituições como Senai, Senac e Sesc" (DEL PRIORE e VENANCIO, 2013, p. 258). Nas escolas, vale lembrar, a imagem sorridente e generosa de Vargas era estampada em cartilhas para serem apreciadas pelas crianças. A adoração à imagem do líder da nação era uma característica própria do nazifascismo e que se fez presente durante a ditadura varguista. 

E por falar em aspectos nazifascistas, não se pode deixar de citar a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). "Voltado para a propaganda política através dos novos meios de comunicação, como o rádio e o cinema, o DIP foi responsável pela organização de rituais totalitários de culto à personalidade do ditador. Essa instituição também submete a cultura popular à censura" (op. cit.). 

Apesar de todos os esforços, Getúlio não conseguiu contentar a todos os segmentos da sociedade. Contudo, a ditadura instalada em 1937, curiosamente, tinha data marcada para acabar. Segundo a Constituição outorgada, previa-se para 1943 a realização de um plebiscito em que o regime seria posto à prova nas urnas, conforme relatam Del Priore e Venancio. Mas a decretação do estado de guerra, em 1942, transferiu a consulta para o período posterior ao conflito. O Brasil lutou na Segunda Guerra Mundial que se prosseguiu até o ano de 1945. 

Com a participação do país no conflito mundial o governo de Getúlio ficou abalado, pois o Brasil participou da guerra ao lado dos Aliados combatendo os regimes ditatoriais da Europa (Nazi-Fascismo). Afinal, como pode o governo de um país enviar seus soldados para porem fim ao regime totalitário em outro continente sendo que o próprio país também vivia uma ditadura?  Foi por isso que, terminando o conflito, a opinião pública brasileira rejeitava a ditadura do Estado Novo. 


Conforme Schmidt, surgiram, ainda durante o governo de Vargas, novos partidos políticos, inclusive comunista, e muitos presos políticos foram libertados. A censura à imprensa também foi rompida. Iniciava-se um período democrático e a liberdade de expressão e política passaram a ser pontos de destaque nessa transição. Os principais partidos, por exemplo, eram o PSD (Partido Social-Democrático), o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e a UDN (União Democrática Nacional). A UDN era radicalmente antigetulista. As eleições para a nova Constituinte (grupo que iria trabalhar na elaboração da nova Constituição do país em substituição à de 1937, do Estado Novo) e para a presidência haviam sido marcadas para dezembro de 1945.

No segundo semestre daquele ano, quando os partidos começavam a lançar suas propagandas políticas, um grupo de adeptos de Vargas organizou um movimento para adiar as eleições presidenciais. O objetivo, muito provavelmente, era ganhar tempo para manter Vargas na presidência. Para tal, o grupo propunha que em dezembro apenas se escolhessem os membros da Assembleia Constituinte e que a democratização do país se fizesse sob a liderança de Getúlio. Era mais uma tentativa de Vargas permanecer no poder.

O movimento, conhecido como Queremismo (Queremos Getúlio), contou com a adesão das camadas populares: milhares de pessoas participavam dos comícios. Até mesmo o Partido Comunista apoiou o movimento. Porém, a União Democrática Nacional conseguiu depor Vargas com o auxílio das Forças Armadas. Até a data das eleições, o país foi governado pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, José Linhares. Porém, mesmo afastado, Getúlio interferiu no resultado das eleições. A declaração pública de seu apoio ao general Dutra colaborou para a vitória desse candidato. Vargas, que nesse período estava no Rio Grande do Sul, não se afastou inteiramente da política, elegendo-se senador pelo seu Estado (op. cit).

Embora desgastado politicamente, isso não lhe impediu de mais tarde retornar ao poder "nos braços do povo". 



REFERÊNCIAS

COUTO, Eliane; CARMO, Sonia Irene do. História Passado Presente. 2 ed. São Paulo: Atual, 1994.
DEL PRIORE. Mary. VENANCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Planeta, 2010. 
SCHMIDT, Mario. Nova História Crítica. 2 ed. São Paulo: Nova Geração, 2005.